Notícias

Entenda o escândalo envolvendo o Facebook e os riscos que todos nós corremos

A curtida na foto do cachorrinho ou o teste para ver como ficaria seu rosto daqui a 30 anos pode ter fornecido seus dados para uma espécie de mercado negro na rede mundial. Há mais de 10 anos, o Facebook possibilita que aplicativos tenham acesso às contas de seus usuários. O jeito mais sutil deste acesso ocorrer é por meio dos aparentementes inofensivos testes. A informação é do portal Folha de São Paulo.

Agora, no maior escândalo da história da rede social, vêm à tona as evidências dos impactos de curtidas, comentários e outras práticas no espaço, que foram determinantes nos rumos, por exemplo, da maior democracia do mundo, a dos Estados Unidos. Mas como isso pôde acontecer?

O primeiro ponto é o erro do Facebook em não ter protegido a privacidade na sua rede social, possibilitando o uso de aplicativos sem conhecimento das consequências do acesso desta ferramenta à sua base de dados e como esses dados seriam utilizados. Essa prática, por si, desfaz o acordo fechado em 2011 com a FTC, a Comissão Federal do Comércio dos EUA.

As razões para este acordo remontam dois anos atrás, em 2009. À época, a rede social tinha sido acusada por várias organizações de defesa do consumidor por violar dados de internautas. A assinatura do acordo veio como uma forma de não cumprir punição.

Dentre os compromissos, estavam a criação de um programa de privacidade para assegurar a confidencialidade das informações; transparência e honestidade com os usuários sobre como os dados são usados; não compartilhamento de informações de usuários com terceiros. O fato de a Cambridge Analytica ter tido acesso a informações de 50 milhões de pessoas, por meio de um aplicativo, mostra que o Facebook não seguiu nenhum dos compromissos.

Como isso mudou os rumos das eleições americanas?

O aplicativo - aqueles de testes de personalidade, por exemplo - fazia perguntas pessoais, a exemplo do quão extrovertida ou vingativa uma pessoa poderia ser, se costuma terminar projetos ou se gosta de artes.

A partir disso, um algoritimo buscava relações entre as características pessoais, pontos de vista políticos específicos e uma série de outras variantes.

Com informações da personalidade dessas pessoas em mãos, eram enviadas mensagens, notícias e imagens pelo Facebook que atingissem pontos estratégicos de cada eleitor e influenciasse a votar em Donald Trump.
 
Os envolvidos no caso

Tudo começou em junho de 2014, quando o professor Aleksandr Kogan, da Universidade Cambridge, no Reino Unido, criou um teste de personalidade no Facebook com o pretexto de conduzir um estudo psicológico de usuários. Mesmo que só 270 mil pessoas tenham feito o teste de Kogan, o sistema permitiu que sua equipe visse o perfil de 50 milhões de usuários, pois também captava as informações de todos os amigos delas. As informações foram transmitidas para a Cambridge Analytica.

O CEO da Cambridge, Alexander Nix, foi retirado da função de presidente da empresa após a rede de TV britânica Channel 4 revelar que Nix se gabou de seus métodos para despotencializar um adversário político.

O terceiro personagem do caso é Christopher Wylie, um canadense de 28 anos que relatou ao jornal The Observer como teve a ideia de relacionar o estudo de personalidade ao voto político. Isso o fez ganhar emprego na Cambridge Analytica. De acordo com Wylie, os dados vendidos à Cambridge Analytica teriam sido usados para catalogar o perfil das pessoas e, então, direcionar, de forma mais personalizada, materiais pró-Trump e mensagens contrárias à adversária dele, a democrata Hillary Clinton.

Para tudo isso acontecer, o esquema precisava de um financiador. Neste ponto da história, entra o empresário Robert Mercer, de 71 anos. Sua fortuna é oriunda de fundos de investimento. Ele é um dos mais relevantes doadores do Partido Republicana - sigla de Donald Trump. Ele investiu na Cambridge Analytica aproximadamente US$ 15 milhões.

Por último vem o conselheiro próximo de Trump. Conforme o The Observer, ele estava no comando da Cambridge durante toda a campanha do presidente americano.
 
"Usuários são cúmplices"

O jornalista Zulfikar Abbany, da agência de notícias alemã DW, é radical em seu posicionamento. Para ele, a rede social não deveria ser usada, e usuários também são culpados por violações de dados. "Assim como um dependente químico não pode culpar apenas o traficante, os usuários do Facebook não podem culpar apenas o Facebook. Cada violação de dados é iniciada no momento em que se faz o login online – mesmo protegido por uma rede virtual privada (VPN)", afirma em artigo.

No artigo, em tom debochado, ele diz não se importar com o fato de Facebook ter implementado táticas de vigilância para aumentar seu poder de publicidade. "Ou com o fato de que mais de 2 bilhões de usuários ativos mensais do Facebook escancaram suas vidas na rede. Por quê? Pois todos os usuários são cúmplices", sustenta.

Ele ainda ironiza os relatos de que Zuckerberg sofreu um impacto pessoal de 6 bilhões de dólares no dia seguinte à revelação do abuso de dados de usuários. "Coitado! Se eu me importo? Fala sério", escreve o Abbany.

Para ele, que define o criador do Facebook como cínico, a solução que seria simples, excluir a conta, torna-se dificultosa. "Tente encontrar o botão "excluir conta" no Facebook – ou em muitos outros aplicativos – e entenderá o que quero dizer. Além disso, há precedência: olhemos para o escândalo fiscal da Amazon. Alguma intervenção governamental consertou isso? Dificilmente", argumenta.

Punição

Agora, a rede social de Mark Zuckerberg pode ter de arcar com multa de mais de R$ 130 mil por cada usuário prejudicado. A estimativa é de que a multa fique em US$ 2 trilhões, aproximadamente quatro vezes o valor de mercado do Facebook.
Facebook se pronuncia

O CEO da rede social afirmou que a empresa tem a missão de proteger os dados dos usuários e "se não podemos, então não merecemos servir você". Segundo Zuckerberg, todos os aplicativos que tiveram acesso a grandes quantidades de informação antes da mudança de plataforma, em 2014, para reduzir drasticamente o uso de dados serão investigados.

"E vamos conduzir uma auditoria de qualquer aplicativo com atividade suspeita. Vamos banir qualquer desenvolvedor da nossa plataforma que não aceitar uma auditoria profunda", afirmou.

"Vamos também restringir ainda mais o acesso de dados por parte de desenvolvedores para prevenir outros tipos de abuso. Por exemplo, vamos remover o acesso de desenvolvedores aos seus dados se você não utilizou o app nos últimos três meses. Vamos reduzir os dados que você dá para um app quando se loga para apenas seu nome, foto do perfil e e-mail", prometeu.

E no Brasil?

Em entrevista ao O POVO Online, a doutora em Computação pela University of Utah (EUA) e professora da Universidade Federal do Ceará (UFC), Emanuele Marques dos Santos, diz considerar improvável que esquema da mesma natureza ocorra no Brasil com a mesma intensidade neste ano de eleições. Para ela, dois fatores foram determinantes para o episódio americano: o alto investimento dos russos com o objetivo de difundir noticias falsas e dividir a sociedade americana, além de desacreditar em outra Cambrige Análitica no contexto nacional.

Ela ressalta, entretanto, que o que há de similar entre Brasil e EUA é o papel das fake news, que será determinante na corrida presidencial. "Imagina só eu tenho me direcionar às classe C e D. Tem povo que votaria no Lula, um pessoal economicamente desfavorecido. Ai eles (produtores de fake news) começam a dizer que Lula que, como ele não será mais candidato, fulano de tal, se for eleito, vai acabar com o Bolsa Família", exemplifica.

"Seus dados são sua moeda"

A doutora diz que tem gente que ao usar o serviço de um aplicativo como o que está envolvido no escândalo, você não paga nenhuma quantia. Em contrapartida, os dados serão usados. "Cada vez que você abre o Facebook é como se você fizesse um leilão. 'Olha só quanto quanto vale a atenção do Cadu, quem pagar mais ganha'. Nas redes sociais, seus dados são sua moeda. Nada é de graça".

Fonte: O Povo Online