Notícias

Encontro debate os desafios da educação para integrar novas tecnologias

Encontro debate os desafios da educação para integrar novas tecnologias

Smartphones nas mãos dos estudantes dentro da sala de aula são aliados para o professor ou adversários na disputa pela atenção dos alunos? E qual seria a melhor opção, proibi-los completamente ou tentar integrá-los como ferramenta de estudo? Mas e se o professor não tem conhecimento dessa tecnologia ou não gosta de usá-la, ela deve ficar de lado?

Essas são algumas das questões sobre o modelo de educação atual que ainda parecem estar bem longe de encontrarem suas respostas, mas foram tema de um debate promovido pelo Instituto Singularidades na última sexta-feira (31), em São Paulo, que reuniu especialistas do setor de educação e de tecnologia para tentarem provocar algumas transformações nessa área.

Um dos principais desafios enfrentados por profissionais da área hoje é como tornar os projetos educacionais algo mais interessante para uma nova forma de aluno, nascido em uma realidade cheia de distrações internas e externas e na qual qualquer informação está disponível de forma fácil e rápida com alguns cliques, através da internet.

Para o responsável pelo setor de educação do instituto de inovação Cesar, Fábio Campos, essa superexposição a estímulos ainda tem outro agravante dentro da sala de aula, que é a característica do cérebro de ser "seletivo e preguiçoso". Para ele, isso significa que o aluno só irá se concentrar no que é interessante e relevante para ele, mas no momento em que ele não entender mais a informação como interessante ou relevante, vai tender a relaxar ou a se entreter de outra forma.

"Então quando a gente vê os alunos utilizando uma ferramenta como o Facebook, na verdade, se isso foi uma falha, foi uma falha de quem está ministrando o conteúdo", avaliou. "Então a gente nota essa dificuldade de conseguir provocar relevância e interesse para os alunos, ao mesmo tempo em que existe a dificuldade dos projetos educacionais proverem aos alunos o poder de expressividade que eles estão buscando".

Uma das formas de provocar esse interesse nos alunos seria demonstrando como as informações passadas em aula vão se encaixar no dia-a-dia deles, o que aproximaria o conteúdo do aluno. "É um acordo: o que eu estou entregando para vocês e o que eu espero de volta para poder entregar isso", opina o especialista.

Para o pesquisador associado da JoyStreet e professor adjunto da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Luciano Meira, o foco do processo educacional não dever ser mudado somente do aluno, mas direcionado para o fortalecimento da relação entre o aluno e professor através da implementação de uma "pedagogia de bits".

Meira afirma que a sala de aula é um espaço onde o professor pode se transformar em um "CEO de startup", atuando como um mediador de pequenas experiências dentro da sala: trocar os alunos de lugar, quebrar as "panelas" existentes para provocar um novo arranjo social, além de promover experiências com o uso da tecnologia, podem ser passos importantes para revitalizar o interesse dos alunos no conteúdo.

"A ideia é encolher a inovação onde é possível para estabelecer metas para você conquistar rapidamente algum sucesso", explicou o professor. O "sucesso" indicado por Meira também é importante para que o professor consiga angariar apoio dentro da escola e entre pais dos alunos para que as inovações no modelo de educação sejam possíveis. "É essencial articular uma rede de transformadores que acreditem que esse negócio é possível", comentou.

Já para o consultor de Design e Experiência do Usuário do Cesar, HD Mabuse, educadores poderiam pegar elementos emprestados da área do design para melhorar a comunicação entre professores e alunos. Para o professor, um exemplo seria a criação de objetos pelos estudantes que façam referência à realidade deles.

Mesmo que esses objetos criados "não funcionem", Mabuse avalia que eles podem ser um ponto de partida importante para provocar o pensamento crítico nos alunos e promover o diálogo dentro da sala de aula. "Essa prática ajuda muito na construção do conhecimento não só pelo domínio técnico, mas também pelo domínio estético e ético", disse.

E os professores?

Nem sempre a tecnologia e a inovação entram como aliadas para os professores. Como opinou a criadora do blog Mulheres na Computação e representante do movimento Maker, Camila Achutti, outra dificuldade de transformação no modelo de ensino ainda é a distância que muitos docentes ainda têm com essas ferramentas. "O professor se sente mega desconfortável e prefere não bater de frente com essa realidade", afirmou. "A gente está falando de uma questão de nativos digitais e imigrantes digitais orbitando uma mesma realidade. Por isso o desinteresse na escola hoje é tão grande".

Uma alternativa para trazer os docentes mais próximos para a tecnologia é criar espaços para experimentação dentro das escolas, onde professores resistentes podem entrar em contato com as ferramentas em um ambiente "seguro" onde possa haver uma troca de conhecimento e aprendizado entre docentes.

"A primeira coisa é extinguir essa noção que quem mexe com tecnologia, com robótica, é de outro planeta", opinou Henrique Foresti, fundador da plataforma de desenvolvimento colaborativo para ensino de robótica Robô Livre. "Os professores vão entrar na brincadeira quando entenderem que um programa de robótica, por exemplo, não precisa ser na aula de física ou de matemática. Eu quero o professor de educação artística acompanhando, de línguas, de história".

Para o criador do canal do YouTube Manual do Mundo, Iberê Tenório, também é importante tentar "quebrar" a tecnologia em pedaços menores e mais específicos, o que pode deixar professores mais confortáveis com a adoção de novas tecnologias em sala. O youtuber usou como exemplo o próprio projeto, que busca explicar ciência, física e tecnologia de forma simples, na tentativa de fazer mais pessoas se interessarem pelos temas.

"Eu tenho impressão que as pessoas tendem a acreditar que não existe mais educação sem tecnologia, mas para mim se houver um professor legal dentro de uma sala que não tiver nem lousa, dá para aprender a mesma coisa", comentou. "A diferença é que a tecnologia já entrou na escola e isso tem mais atrapalhado do que ajudado. Isso tem obrigado as pessoas a usarem isso, senão o aluno vai usar para outra coisa".

Transformação de dentro para fora

Ainda que as ideias para transformações sejam abundantes, o setor ainda enfrenta outro desafio para implementá-las: no país, as estruturas de escolas, universidades e do próprio Ministério da Educação (MEC) no Brasil ainda são muito engessadas e focadas na pedagogia, o que muitas vezes bate de frente e se sobrepõem às tentativas de inovação.

Para os debatedores, promover qualquer tipo de inovação pode ser um trabalho que exige paciência, principalmente junto ao setor público, no qual as transformações são lentas e movidas por longos ciclos de conversação.

Mas os especialistas são otimistas. Fábio Campos exemplifica com o próprio caso do Instituto Cesar, que criou cursos de graduação que atendem todas as exigências feitas pelo MEC no período da manhã, mas colocou "uma camada de inovação", e promove no período da tarde reuniões com turmas de diferentes cursos em aulas focadas na solução de problemas reais do mundo moderno. "É possível, mas exige um esforço e tem uma chance enorme de dar errado", brincou.

Para Camila, a transformação também passa pela "derrubada" do muro das escolas, tirando os alunos da posição passiva e os colocando como agentes ativos do seu aprendizado. "Por que os alunos que ainda estão na universidade, mas têm tempo e vontade, não podem ensinar a galera do ensino fundamental a fazer tecnologia?", questionou. "Depois que o aluno sai da inércia do passivo para o ativo, ele vai atrás. E isso até tira a culpa do ombro da escola".

Fonte: Canaltech

Romae